Há 70 anos - Pai Américo - Partiu para o Céu
Voz do Bispo
Continuação do número anterior
[…] Maternidade da Igreja — paternidade do Sacerdote… Em todos os sentidos; e até neste de que, assim como só a Igreja pode fazer o homem adulto e a sociedade adulta — o mal tem sido sempre quando se procura a emancipação antes de tempo… — assim também o sacerdócio é só capaz de formar autonomia da consciência, da verdadeira consciência religiosa. Mas não será essa precisamente a missão autêntica de toda a verdadeira paternidade e maternidade, que o filho cresça em capacidade, responsabilidade e autonomia até que a sua ligação à família seja apenas de amor e gratidão?
Padre Américo — Pai Américo.
O apóstolo dos tugúrios, o criador da Obra da Rua, do Património dos Pobres e do Calvário, foi grande no amor do próximo porque foi grande no amor de Deus. É das Tábuas da Lei, que não podem ser invertidas nem convertidas.
O sacerdócio foi para ele a grande opção vital, a eleição decisiva. Tudo o mais, nem sequer pensado nesse momento, veio depois por acréscimo e como simples aplicação dum espírito haurido no Sacerdócio de Cristo.
Sacerdócio vivido em aspiração, em renúncia, em heroicidade. Sacerdócio de Credo, Mandamentos, Bem-aventuranças. Sacerdócio dos conselhos evangélicos.
Mas ouçamos a sua palavra. A oratória fúnebre costuma invocar ou pôr a falar a eloquência da morte, dos seus crepes e dobres funerários.
Padre Américo, como as crianças e os verdadeiros crentes da ressurreição, não amava essas pobres manifestações ou consolações dos que ficam.
Ouçamos pois a sua palavra viva e autêntica, no momento mais alto da sua vida que foi o início da sua oblação sacerdotal:
(Vide Facetas de uma vida — «Gaiato» n.° 325 de 18 de Agosto de 1956).
Defunctus adhuc loquitur. Ouvimos a voz daquele que hoje vive em Deus.
Vinte e oito anos quase se passam sobre estas palavras em acção: esses anos foram estas palavras em acção.
Uma inspiração, um voto, um juramento — que é uma vida plena senão isto, traduzido na rotina quotidiana?!
Como a mãe toma nos braços o filho do seu amor e das suas esperanças e o levanta bem alto para o oferecer a Deus e ao futuro, assim também em certos momentos tomamos nas mãos da nossa consciência os sonhos e esperanças, os projectos e ambições, o tudo que somos e o mais que tudo que queremos ser, tomamos na mão esse infinito de imagem e semelhança e oferecêmo-lo — que esse seja sempre o caso! — oferecêmo-lo à assunção no Infinito substancial.
São momentos que encerram vidas, são momentos de eternidade. Está aí o sinal que dá sentido à vida; aí, a cruz de todas as coordenadas; aí o centro imóvel da revolução do mundo.
Alguns grandes génios falam dessa experiência como duma revelação, como dum contacto interior com a essência das coisas, ou com o destino vital. Em qualquer sentido que se considere, quando essa experiência é da ordem da que mencionamos, há o contacto interior, pela Graça assistente, com a Vontade de Deus, que é Amor, e, pelo Amor, com a Essência.
União com Deus, contacto com o Essencial, prisão ao Eterno: assim a vida passageira, em toda a sua contingência, se pode tornar vida eterna.
Fixemos esta imagem do Padre Américo, que, assim, fixamos a sua imagem de eternidade! Que essa imagem seja fecunda em seguidores e imitadores!
E que ele, junto de Deus, interceda pela sua Obra e pelas vocações de caridade espiritual e temporal, que a conservem, dilatem e multipliquem!
A. Bispo do Porto
(Alocução proferida pelo Senhor Bispo do Porto nas Exéquias solenes por alma do Pai Américo.)
«O Gaiato». 14 de Setembro de 1956. Presença da Igreja.
Ano XIII, N.° 327, pp. 1-3.
