Há 70  anos - Pai Américo - partiu para o Céu

Convidado pelas Obras de Apostolado do Porto para estes sufrágios a minha primeira palavra é de apreço pela sua decisão.

Morreu o Padre Américo.

Morreu como viveu: apressadamente, inesperadamente, a tratar dos outros, pelo coração.

Morreu; e vive ainda. A sua alma vive em Deus, como piamente confiamos, e a sua actividade vital continua-se na sua obra.

A morte cercou-se dum ambiente emotivo e o seu enterro somou-lhe um carácter triunfal, que nos habituamos a considerar doutras eras, que quase não achávamos possível nos tempos pequenos que vivemos.

Tudo isto, em verdade e em certa medida, nos remiu da pequenez dos tempos.

O rei David, em espírito de profecia, salmodiava outrora: Contra mim murmuravam todos os meus inimigos; projectavam-me os maiores males: quando é que ele morrerá e perecerá o seu nome? Porém o mesmo Salmista professava, confiada e triunfalmente: Bem-aventurado aquele que cuida do Pobre e do desamparado, no dia mau o Senhor livrá-lo-á!

O nosso grande e saudoso Morto gostava de repetir esta proclamação de confiança. E em verdade nas horas mais sacrificadas da sua vida — que as teve, como todo o «filho do homem» — sempre a Santa Igreja esteve com ele e ele com a Igreja e por isso sempre Deus o livrou de todo o mal.

Nesta solenidade de sufrágio e evocação — embora rezando e continuando a rezar por sua alma, segundo a tradição católica, que se funda na praxe dos maiores santos — confiamos que naquele momento extremo, que o mundo chama hora má, Deus o terá libertado do Inimigo espiritual e o terá acolhido em Seu seio, segundo as promessas feitas aos que se ocupam dos pobres e deserdados; e, por essa parte, contra os inimigos do bem e da virtude, que querem a morte dos justos, para que pereça o seu nome e a sua memória, proclamaremos fidelidade à lição da sua vida, na união sacerdotal e eclesial de todos os que se denominam seus, na fé e prática efectiva e abnegada do Evangelho e finalmente na lealdade filial e integral à Santa Madre Igreja, de forma a podermos dizer bem alto e bem a dentro pelo tempo que ele não morreu entre nós nem o seu nome perecerá na nossa terra.

Para isso será preciso deduzir bem e ter sempre presente a lição da sua vida; e essa lição, através de longa e vária escrita, resume-se toda naquela evolução fonética e semântica, que não sei se já foi historiada ou se algum dia o será, evolução que, na boca dos seus gaiatos e dos seus sacerdotes, de Padre Américo fez Pai Américo. A verdade das coisas, provavelmente saída ex ore infantium!…

Na verdade, como já várias vezes dissemos, para poder praticar a caridade, melhor, para ser obrigação estrita de praticar a caridade, não é preciso ser padre; mas a verdadeira Caridade nunca poderá deixar de estar em união com o sacerdócio, íntima e profundamente impregnada de espírito sacerdotal. Aceitam-se todas as ajudas e todas as boas vontades, mas esta é a exigência do espírito que vivifica. É esta a ordem, a hierarquia essencial. Deus é Caridade, a Igreja é o fenómeno temporal da Caridade, o Sacerdócio é a fonte da vida da Igreja. A maternidade da Igreja só se realiza através da paternidade sacerdotal.

[Continua]

A. Bispo do Porto

(Alocução proferida pelo Senhor Bispo do Porto nas Exéquias solenes por alma do Pai Américo.)

«O Gaiato». 14 de Setembro de 1956. Presença da Igreja.Ano XIII, N.° 327, pp. 1-3.