Há 70 anos - Pai Américo - partiu para o Céu

Por amor à verdade

Acabo de ver um Jornal norte-americano. Se não tivera lido em imprensa de mais perto tanta fantasia sobre a vida e a morte do Pai Américo, mais ainda pasmaria das distâncias aonde leva a imaginação dos homens.

Isto e o interesse manifestado por muitos leitores, faz-nos voltar aos últimos dias da sua vida e relatar.

Em 12 de Julho, 5.ª feira, foi a bênção da Capela de Beire. Dia de grande satisfação para Pai Américo. E o seu último acto público, como que o sublinhar do seu cuidado maior: «A vida religiosa nas nossas comunidades, seja o centro. As grandes aflições dos Padre da Rua tenham aqui a sua origem; vale mais a alma do que o corpo».

Na tarde desse dia partiu em direcção ao Minho aonde o levavam assuntos da Obra. Arrumados estes, em 6.ª feira, 13, outros o obrigaram a descer a Coimbra. Contava pernoitar em Marinha Grande onde realizaria uma palestra sobre o Património dos Pobres; porém, a notícia de uma recepção festiva, desviou-o de lá.

Mas sempre continuou para o Sul afim de tratar em S. Martinho do Porto do Património dos Pobres naquela terra. Foi o seu último sopro. De regresso trouxe de Alcobaça as duas senhoras para ajudar nesta Casa de Paço de Sousa. Foi no sábado, 14, o fim da viagem. A tarde desse dia esteve ainda tomada por voltas no Porto. No regresso a Paço de Sousa, em S. Martinho do Campo de Valongo foi o desastre. Não houve excesso de velocidade. Não houve desleixo. Não houve culpa. Foi um desastre.

Aliás o acidente deixou-o sem pernas e ele morreu do coração, consumido por 27 anos de sacerdócio vivido com uma intensidade que ninguém põe em dúvida. Depois, foi o regresso ao Hospital de Santo António. O estado era grave. A noite de sábado para domingo manteve em cuidado médicos e amigos. No domingo de manhã, perfeitamente lúcido, como quase até ao fim, pediu e recebeu os Sacramentos. O dia de domingo foi passando em esperança crescente. A noite encontrou-o com tensão arterial e pulso em franca normalização.

Cerca das 11 horas, um médico amigo, ainda familiar, viu-o e ficou muito contente. «Até já refilou» — disse ele ao deixar o quarto. Passado pouco pediu uma injecção para dormir. O médico assistente consentiu. Mas ele nem mesmo assim conseguiu descansar. A sede mortificava-o. Constantemente pedia pedacitos de gelo que chupava sôfregamente. Às 2 da madrugada começou a ficar muito aflito do coração. Deram-lhe injecções adequadas e tomou oxigénio. Cerca das cinco horas começou a sossegar. Pensámos que era a reacção boa. Mas ele foi-se apagando e às seis e cinco da manhã do dia 16, dia de Nossa Senhora do Carmo, Avelino gritou que já não respirava e nós quisemos não acreditar, mas era verdade. Depois, foram aquelas vinte e quatro horas de apoteose que o Porto conheceu. Depois a chegada a Paço de Sousa, em simplicidade, como ele gostava. Depois o abrir do chumbo, não em lances trágicos como romancearam os repórteres, mas porque havia licença para tal, já que o corpo desceria à terra. Depois um beijo de cada um por despedida. Depois, a presença dele que todos nós continuamos a sentir e que nos esforçamos por manter, vivendo a vida que nos legou, em simplicidade, como ele gostava.

[Padre Carlos]

«O Gaiato», n.° 325, de 18 de Agosto de 1956, pp. 1-4.