HÁ 70 anos - Pai Américo - partiu para o Céu

Ocorre neste ano de 2026 o septuagésimo aniversário da partida de Pai Américo para o Céu.

Com o intuito de reavivar a Memória e as memórias, nossas e de todos, vamos publicar o que nos possa ajudar ao longo deste ano, a reencontrarmo-nos com testemunhos que ficaram, como quem reza, ansiando pela proclamação da Igreja da sua santidade de vida, ele que já foi proclamado Venerável pelo Papa Francisco e antecipadamente venerado pelo Povo que o proclama santo.

«Voz dos Gaiatos

Estava na Praça da Liberdade. Os passeios regurgitavam de gente. Os carros eléctricos paravam e poucos deixavam de ser visitados pelos nossos pequenos vendedores. Sentia-me feliz, naquela hora, por vê-los tão bem ocupados. A minha ida ao Porto havia sido para espevitar; insuflar vontade e espírito de sacrifício nos vendedores. Porém, no meio do turbilhão da praça eis que aparece o «Banana», esbaforido. Foi a primeira trombeta.

— Sabes?

— O quê?

— Pai Américo partiu as duas pernas!

— Quem te disse, rapaz?

— Foi uns senhores...

Pai Américo estivera momentos antes no Espelho da Moda, e aquela notícia assim tão crua fazia desconfiar. Continuei. O meu coração tremeu. Obtida a confirmação da tragédia, dos Clérigos ao hospital foi um pulo. Entrei. Pai Américo jazia na câmara de oxigénio. Abeirei-me. Acenou e sorriu. «Por aqui?…» Dispus-me a não arredar mais pé. Se companheiro nas horas altas de alegria, nas amargas ainda mais.

Entretanto a notícia correu veloz. Repórteres, pequenos vendedores, Amigos da primeira hora, médicos, todos vivíamos aqueles dolorosos momentos no banco do hospital.

E não resisti a tornar junto da cama. Entrei. Cheguei-me para mais perto. À força consegui suster as lágrimas. «Abre isso». Era o fecho da câmara de oxigénio. E abri. «Estou bem», continua. Fiquei, então, mais conformado: «estou bem». E sorriu. Porém, um sorriso diferente. Já não era o que nos habituáramos a ver. E remata: «quando saio daqui?» A comoção voltou a embargar-me a voz. Não respondi e saí.

Instalado num quarto do pavilhão aí acompanhei parte do seu calvário. Nos momentos dolorosos exclamava: «não sei que sinto; um mal estar geral»!… E a noite inteira foi de sofrimento e uma resignação de estremecer. De vez em quando limpava-lhe o suor. Cobria-lhe o corpo. E quantas me pedia gelo: «Júlio, dá-me gelo». De pé ou sentado à cabeceira, a minha vigília incomodava-o: «deita-te». Era a preocupação. Via-me sem descanso. Eu conhecia o Pai Américo. Foram anos de companhia diária. Ainda bem não e já sabia o que queria. Às vezes bastava um gesto. Outras, uma palavra. Outras ainda, uma frase mal acabada: «Oh Júlio, não pode ser. Não posso dizer-te nada». E ria a bandeiras despregadas. Por isso compreendia perfeitamente aquele «deita-te».

Todavia, no meio daquele amargo sofrimento ainda chegou a exclamar: «já estou a acostumar-me a isto»...

Até que surgiu a aurora de domingo e piorou. Chamei enfermeiros e médicos e tudo. A cada passo dizia: «Júlio, estou muito mal». Pai Américo sabia como estava. Sempre esteve lúcido, bem lúcido. O sol já entrava pelas vidraças e foi o momento de pedir o capelão: «chama-me o capelão». Que momentos! Descrever? Faltam-me palavras. O recolhimento, a devoção, até a santidade como recebeu os Sacramentos, é impossível de dizer. No meio de tudo isto, só de joelhos e olhos na cruz. Mais nada. De- pois, tudo parecia caminhar bem. Mas Deus quis chamá-lo. E na segunda-feira cerrou os olhos para o mundo e abriu-os para o Céu. Custou-nos! Aos homens que ficam a morte custa. É a saudade. Mas a morte para o Pai Américo fora sempre o princípio da Vida. E para a Vida Eterna é que trabalhara — pelo desgaste quotidiano, vigílias, desgostos, incompreensões, em suma, amor total ao Rapaz da rua e ao Pobre, por amor de Deus.

E os Pobres não faltaram. Pai Américo sempre me dissera: «os pobres são os nossos Amigos. As nossas testemunhas de defesa no dia do Juízo Final». E, mesmo na terra, junto do seu corpo inerte, eles não faltaram a confirmar a sua profecia. Eu vi. Eu vi o Barredo a desfilar e a chorar o seu Amigo. O Barredo de mãos postas, erguidas para o Alto. Sim, o Barredo, o povo daquele «lugar de Mártires, de Heróis, de Santos», que Pai Américo tanto amara, e fora uma das suas coroas de glória.»

Júlio Mendes, «O Gaiato», n.° 324,

28 Julho, 1956, pp. 1-3.