
DOUTRINA
Ao romper do dia
A primeira visita de 1956, ao romper do dia, foi a repetição de uma idêntica o ano passado: hora, motivo, intenção, tudo. Trata-se de Alguém que deseja pagar todos os anos a sua contribuição ao Património dos Pobres, até chegarmos aos tempos da saturação. E como o caso é sério e de grande valor social, o marido fez-se acompanhar da esposa, tal como Janeiro passado; e ambos quiseram participar do nosso café, tendo assistido igualmente à Missa da comunidade. Espera-se que tal como estes dois, venham outros, muitos mais, a compreender e a praticar.
O actual e crescente movimento não pode ser tratado por «um caso chocante», ou ainda «uma Obra de coração», como alguns têm posto e querem que seja; não pode. Tem de ser acima de tudo uma Obra de inteligência. Ora façam o obséquio de ler parte de um artigo publicado em o Diário de Notícias, no derradeiro dia do ano passado:
«Cada uma dessas portas não dá para uma casa — conduz a um corredor longo, sinuoso, irradiante. E para esse corredor se abrem outras portas. E cada porta é a habitação de uma família. Em 6 metros quadrados vivem 12 pessoas, cozinha-se, come-se, arrecada-se o trajo e os víveres. São famílias inteiras: marido, mulher e 10 filhos! Alguns são já homens e mulheres e há-os de todas as idades. Num leito dormem cinco irmãos dos 6 aos 17 anos! O que significa este facto? E sabem quantas pessoas vivem nas «ilhas» do Porto? Nada menos do que um quinto da população de toda a cidade.»
O jornalista andou por lá. Não fez estilo. Disse a verdade. Ora é isto precisamente o que importa: a verdade. Esta verdade, sendo imutável como é, contudo, tem as suas épocas. Hoje é o Social. A Guerra Universal é isto mesmo. Tudo quanto hoje aflige o mundo das nações, é isto. Sejamos, pois, inteligentes..
PAI AMÉRICO, Notas da Quinzena, 1.ª ed., 1986, pg 358-359