DA NOSSA VIDA

Pelos Pobres

Aproveitou a presença do filho, de visita à família, ele que é emigrante na Alemanha, onde seus pais também o foram, para vir dar a sua contribuição para O GAIATO, que assina há mais de 60 anos. Outra preocupação trazia, a de falta de saúde do seu marido, com um problema em particular, para pedir a intercessão de Pai Américo na boa resolução do mesmo.

Quando seus filhos eram crianças, trazia-os a visitar a nossa Casa, partilhando também da sua pobreza familiar com a nossa. Recordou esses tempos de grandes carências, tendo, apesar disso, sempre algo para dar, uma vez por ano, à Casa do Gaiato.

Muitos são os amigos que nos primórdios desta Casa, quando cá vinham, não dispensavam passar pela padaria e saborear um naco da boroa que os nossos rapazes faziam, partilhando a vida de uma família onde não faltava o essencial. Eram sinais de proximidade e de semelhança no ter e no sentir. Também Pai Américo, nas suas visitas aos Pobres, gostava de saborear da sopa que tinham ao lume, como aproximação à vida deles.

São tempos que deixam saudades pela riqueza de humanismo.

Gostamos destas partilhas que os nossos amigos nos transmitem. São testemunhos vivos de uma realidade vivida, apelos à fraternidade que o actual materialismo dominante desconhece e abafa. Não basta ao homem ser homem para ser humano. Necessita do fogo purificador das escórias do egoísmo que a ele andam agarradas, que é a fraternidade.

São os Pobres que ajudam os Pobres! É uma verdade sempre proclamada pelos nossos padres, conclusão resultante da experiência e não de qualquer estudo.

Hoje nada se faz sem estudos. E quando se toma uma decisão sem lhes dar importância, logo chovem as críticas dos bem fundamentados.

Como nada fazem sem eles, ficam muitos a beneficiar deles antes da obra feita e os que precisavam de beneficiar das obras ficam em lista de espera.

Pai Américo fez tudo com base na intuição, e esta com base na fé, e não foi confundido nem se enganou. Os Pobres precisam que quem cuide deles ande para a frente assim. De outro modo resta-lhes a rua.

Veio até nós um dos nossos que anda nela. Chorou arrependido por se ter ido embora antes do tempo. No desenrolar do desabafo, foi dizendo que saíra de cá por ordem do tribunal, a pedido da sua mãe, e as coisas não correram bem…

Deram-lhe a rua como casa, e uma lista semanal onde pode ir comer à hora do almoço. Encontrou lugar num edifício inacabado a que chama a sua casa. De tão habituado a deambular e a viver de diferentes ajudas/subsídios, não parece que venha a ser fácil estabilizar ainda que se lhe criem condições adequadas para tal. Outras dificuldades acrescem…

Estamos a preparar resposta para os que dela venham a carecer. Não queremos fugir à linha de Pai Américo, para não nos enganarmos no caminho.

Padre Júlio