
Centenário da Matrícula do P. Américo no Seminário de Coimbra (1925-2025)
Caridade, acção e lucidez na obra do P. Américo Monteiro de Aguiar
Saúdo todos os presentes, sobretudo D. Virgílio e os Sacerdotes da Obra da Rua.
Tenho o maior gosto em me associar a este momento celebrativo. Considero sinceramente a vida do Padre Américo um exemplo de santidade. Este é o fundo da minha intervenção.
O meu conhecimento do P. Américo vem de duas fontes, A primeira é uma frequência, bastante irregular, das obras escritas, cuja leitura sempre me causa a maior impressão e emoção. A segunda é a de ter tido o gosto de presidir ao tribunal que escutou os depoimentos de tantas pessoas, por ocasião da fase diocesana do Porto, da causa de canonização sobre a qual também ouviremos falar hoje.
1. Alguns elementos sobre a biografia do P. Américo
A biografia do P. Américo sempre me intrigou pela sua originalidade. Tomei contacto com os relatos das pessoas que ouvi no tempo que vos falei, fiz parte do júri que avaliou um trabalho de doutoramento sobre ele na FLUP, consultei ocasionalmente alguns dos estudos sobre o pensamento pedagógico dele. Sempre senti que há uma dificuldade em dar conta do mistério da personagem. Com efeito, parece-me que as tentativas de iluminação da figura pelas circunstâncias históricas em que viveu, dos dotes pessoais da personalidade, das condições do nosso país durante a sua vida apenas explicam parte do mistério da sua vida.
Dou-vos o exemplo da sua passagem pelo Seminário de Coimbra e das dificuldades que ele refere sobre a frequência do curso teológico. E não me refiro à "gata" que teve a canto gregoriano. Refiro-me principalmente à outra expressão em que confessa que o deixaram passar no curso "por misericórdia". Como se explicam estas dificuldades? Uns dirão que essas dificuldades se referem à sua memória já afectada pela sua idade. Não me parece que se deve ir por aí. Ele dá mostras de uma inteligência fulgurante nos seus escritos, dá mostras de ter uma afinidade imediata com o texto bíblico, consegue fazer boa literatura com os elencos de contas dos donativos que lhe chegaram na semana a que se referem os textos. Quem me dera que os meus alunos de teologia me escrevessem textos tão luminosos, tão concisos, tão vividos. Mesmo aqueles que classifico com altas notas na Faculdade. De onde vem, pois, o problema?
Dando uma resposta provisória, direi que o problema não estava no estudante, mas estava nos estudos que lhe ministraram e que eram devedores de uma forma de colocar as questões teológicas que deixa muito a desejar à função iluminante da teologia, naqueles tempos de pretensa fidelidade neo-escolástica à boa tradição do conteúdo da fé. Que me perdoe o Seminário em que nos encontramos.
A mesma coisa se pode dizer do fracasso da sua tentativa de se fazer frade franciscano. Como é possível que um homem com traços tão parecidos com o Pobre de Assis não tenha encontrado lugar na Ordem? Certamente, o problema estava na Ordem e não no candidato a frade!
Não falo já da história da sua vocação e do progressivo crescimento da sua obra assistencial. A história da sua vocação, que ele conta com a alusão um tanto brutal a uma "martelada" que o atingiu ou a sua nomeação para a sopa dos pobres, por não servir para mais nada ou por estar doente. A explicação está muito a montante de tudo isso.
Em todos os estudos que vi, há muitas coisas valiosas e há investimentos que honram os seus autores. Porém, no meu modesto entender, apenas um estudo teológico pode aproximar-se de uma compreensão global da sua personalidade e das coisas da sua história pessoal. Ele não instituiu a obra porque havia muitos pobres no Portugal do Estado Novo, não foi para padre porque havia falta de vocações, não foi santo porque era um homem edificante. Foi muito mais do que isso.
Vou então alinhar duas ou três ideias, como forma de prólogo a um estudo teológico da vida e obra do P. Américo.
2. Um caminho para compreender
Há dois caminhos para pensar teologicamente as coisas da fé.
Um é o caminho da observação daquilo que é visível. Este o caminho de uma fenomenologia intencional, que visa um objecto, que apreende com os olhos, o descreve na sua configuração, no seu desenrolar, das suas leis constantes, dos seus fins e por aí adiante. Reparem que isso é o caminho da ciência comum, mas é também o modo como tem funcionado a exegese histórico-crítica, a história da Igreja, a teologia dogmática, a teologia moral, a liturgia. Alguns dizem que Tomás de Aquino também procedia assim, mas confesso que tenho algumas dúvidas. Por esta via, chega-se a esclarecer um fenómeno, como a biografia do P. Américo, de uma forma científica. Também se pode pensar a cristologia por este caminho e concluir sobre a existência histórica de Jesus, sobre o seu programa de pregação, o seu propósito de fundar a Igreja e de fundamentar uma nova moral. Desculpem-me que vos diga que me lembro de uma afirmação de um teólogo que afirmava que para realizar a redenção do mundo, Jesus não necessitava de saber o que se estava a passar consigo mesmo! Achei isso absurdo. Mas, nesse tempo, não tinha meios teóricos para rebater a ideia.
Outro é o caminho da escuta do rumor da vida que se vive no sujeito. Reparem que por este caminho, conhecer não significa observar o que está diante de nós, de observar o mundo, mas sintonizar com a moção da vida que transporta todos os viventes e que os dá a si mesmos como viventes e justifica as suas acções e os seus pensamentos. Este caminho da imanência começa mesmo por desconfiar radicalmente de todos os factos que nos parecem acontecer, para remontar a uma origem imemorial que dá ao sujeito a sua experiência de vivente, a sua subjectividade actuante, a sua exposição à felicidade do frente a frente com Deus. Este caminho é muito próximo da verdadeira experiência mística e é muito mais exigente do ponto de vista do estudo e da feitura da teologia. O fenómeno que se trata de estudar não está para lá de uma consciência intencional, mas para aquém dela e antecedente a ela. Este caminho é muito mais fecundo para a teologia e muito mais difícil de explicar pedagogicamente aos nossos alunos. Quem diz formar alunos, diz formar o povo de Deus. Mas, este método é imprescindível para fazer boa teologia e para iniciar a uma autêntica espiritualidade cristã e mesmo a uma vivência litúrgica do mistério de Deus. E pode ser vivido em português, que dizer, nem necessita de um regresso ao latim que muitos desejam nos dias que correm.
Este segundo caminho é imprescindível para elaborar uma biografia espiritual do P. Américo e um perfil da santidade que viveu e das obras que realizou. Por onde começar então?
[Continua]
Jorge Cunha
4 de Outubro de 2025