CALVÁRIO

Trata-se de um caminhar juntos que supõe ir tecendo cumplicidades, conhecimento mútuo, desde a escuta atenta e o diálogo. Um caminhar que também passa pelo compromisso de buscar todos os recursos necessários para «proteger, custodiar, preservar, guardar, vigiar» (Laudato Si n.º 67) a vida e as necessidades dos mais vulneráveis.

Mar Galceran Peiró, Galilea. 153, p. 11

O Calvário tem mantido, apesar das mudanças estruturais, a sua capacidade carismática de acolhimento. Os doentes, os novos colaboradores, os voluntários, os familiares e os amigos têm cá o seu lugar. Há um lugar para muitos, esperamos que para todos!

É um processo institucional. Requer capacidade de escuta, visão da realidade e discernimento. Cada pessoa que chega até aqui vem com a sua história multifacetada, umas vezes feridas outras vezes agraciada. Algumas dessas histórias encontraram no jornal O Gaiato a possibilidade de serem declinadas na primeira pessoa, uma vez nunca foram narradas publicamente. Sabe Deus com que custo e com que incómodos gramaticais, mas que a linguagem ajuda a sarar feridas é verdade. É um unguento para a alma.

Há um mês acolhemos o senhor Gonçalo e o José Luís. Vieram de Felgueiras, da paróquia de Pinheiro, onde é pároco o Padre Artur Dias, que, estando noutros tempos na Vigararia de Paredes, ajudava como voluntário aos sábados de manhã. Dois homens que a vida conduziu à solidão. Nem a família próxima, nem os amigos, nem o trabalho, nem os vícios apaziguaram esse destino de ficarem entregues a si mesmos e à prisão de uma casa alheia num quarto sem condições. Foi assim que nos foram confiados. Fizemos várias visitas para nos inteirar da situação real. Asseguraram os próprios que queriam vir para o Calvário, mesmo sem conhecerem o Calvário. Confiaram que aqui houvesse lugar para a fraternidade e a comunhão. E tudo o mais que é essencial: um prato de comida quente, a higiene necessária, uma palavra amiga, um tempo para a oração, a caridade de um rosto que aparece com frequência. Não era só a expectativa de mudança, mas a esperança que anima a que cada dia não seja o último e a única companhia não sejam os lençóis de um leito isolado do mundo. Esperavam um lugar perto de irmãos.

Uma fraternidade espiritual e carismática como fundou o Pai Américo. Trouxeram as suas coisas numa pequena mala, que facilmente se arrumou no quarto que agora partilham. E o muito que lhes pertence ainda estamos a desvendar. A sua história pessoal, o que os feriu e o que os mantém a viver. Sim. O Calvário é para viver com outros e para outros e encontrar assim o valor da existência cristã, ainda que a memória seja um exercício difícil nestes dias de mudanças. Bem-vindos.

Padre José Alfredo