CALVÁRIO

Calvário, 30 de Dezembro de 2025

O Padre Telmo Ferraz completou no dia 25 de Novembro último 100 anos de nascimento. De manhã, e em Beire, celebrámos eucaristia de acção de graças presidida pelo senhor bispo auxiliar da Diocese do Porto, D. Roberto Mariz, concelebraram uma dezena de padres, da Obra da Rua e outros padres diocesanos e religiosos. Estiveram presentes os membros do Calvário; a família de sangue — sobrinhos e sobrinhos netos; Gaiatos que o acompanharam para Angola por ocasião da fundação da Casa em Malanje; barragistas de Picote e muitos amigos, que habitualmente nos visitam. O menino de Bruçó estava emocionado com tantas manifestações de amizade e carinho. Da sua boca só brotava uma palavra: gratidão. São dez décadas em que semeou entre Miranda e Malanje um rasto de humanidade invulgarmente humilde ao serviço da dignificação humana, especialmente da classe trabalhadora e dos rapazes da Casa do Gaiato. Por onde passou não deixou ninguém indiferente à sua personalidade cativante e cativadora, nos gestos simples, no sorriso fácil e nas palavras ditas e escritas com a sabedoria dos sábios experimentados. A única que converte!

O Calvário de Beire foi a última realização do Pai Américo. Em 1954 anunciou a criação de um "hospital" para doentes incuráveis, que aqui encontrassem condições dignas para morrer cristãmente, a antecipação do conceito espiritual dos cuidados paliativos em fim de vida, ainda que sem a componente médica e de enfermagem que o tempo exigiu e consagrou. A sua morte em 1956 não fez abortar o projecto, porque o encabeçou o Padre Baptista, dando corpo ao espírito do fundador. Ao longo de seis décadas ele construiu e dirigiu uma instituição eclesial dedicada aos doentes pobres mais pobres e mais abandonados da sociedade. Criou uma verdadeira família para todos os que eram rejeitados pela família de sangue e pela sociedade portuguesa ditatorial e preconceituosa do terceiro quartel do século XX. Foi um profeta para uma cultura ainda não estruturada no apoio social aos mais carenciados, sobretudo os rejeitados. A casa mãe e o pavilhão; as casas abrigo e lares; a escola de ensino especial; a capela espigueiro; as instalações agrícolas; as oficinas; a residência de acolhimento para voluntários; tudo realizações riscadas e construídas com amor para oferecer caridade aos deserdados.

Continua

Padre José Alfredo