
BENGUELA - VINDE VER!
Enxurrada
Foi na madrugada do Domingo de Páscoa, que fomos surpreendidos por tão grande corrente de água que deitou abaixo cerca de quinhentos e noventa metros de muro que vedava a parte frontal da nossa querida e amada Aldeia do Gaiato de Benguela. No meio da noite os guardas fugiram dos seus postos de guarnição para vir comunicar que havia água a inundar os campos. Eram por volta da uma hora da manhã quando chegamos ao nosso portão central. A corrente levava quase um metro de altura. Corria com grande pressão fazendo ondas e por onde passava deixava o rasto da destruição. A carrinha cheia de rapazes não teve força para atravessar a avenida. Seguíamos contra a corrente. Quando chegamos à estrada, já as águas tinham rompido os dois lados do portão. Desde a uma da manhã até ao amanhecer não houve mais sono para os rapazes maiores. Os pequenos dormiam tranquilamente, nem chegaram a dar conta do barulho das águas. Foram arrancadas as culturas agrícolas e destruídos cerca de dez hectares de milho, hortaliças e outros pequenos viveiros. O campo necessita agora de uma maior intervenção, as águas lixiviaram o solo e o empobreceu ainda mais levando as nutrientes essências que sustentavam as plantas. Vamos precisar de muito calcário, muita matéria orgânica e certamente alguma percentagem dos adubos industrializados, bem doseados para não estragar a terra. Ficamos sem o milho nos nossos campos. Ele é o alimento diário para matar a fome à nossa gente. Aqui em nossa Casa damos de comer a mais de duzentas e cinquenta pessoas diariamente. Temos três cozinhas. A primeira confecciona quatro refeições ao dia para os nossos cento e cinquenta e sete rapazes internos e cerca de quinze externos. Estes últimos tendo em conta as idades fora do limite normal. Desde o pequeno-almoço tomado às seis e meia da manhã, o almoço ao meio-dia, o lanche às cinco e meia da tarde e o jantar às oito da noite. A segunda cozinha é a que serve o pequeno-almoço às sete da manhã para os trabalhadores efectivos, cerca de quarenta homens e mulheres, e o almoço ao meio-dia. E a terceira cozinha que serve o almoço para os trabalhadores eventuais ao meio-dia. Todas as cozinhas têm na base da sua dieta a farinha de milho. Por causa das chuvas vamos ficar muito aflitos para comprar este bem necessário para a nossa alimentação diária. Vai faltar farinha até recuperarmos as condições sustentáveis para arrancar com as novas plantações. Enquanto isso demorar as pessoas não podem passar fome. Teremos de procurar quem nos possa auxiliar com estas despesas urgentes. Os motores que extraem a água para a rega ficaram todos encharcados. Neste momento estão em fase de secagem em estufa própria que o electricista arranjou. Duas lâmpadas de aquecimento durante vários dias para transmitir calor aos motores para ajudar a secar da humidade. Tudo muito simples. Tudo com os meios que se possam arranjar cá para remediar as feridas abertas pelas enxurradas. A energia eléctrica é outro problema de que ficamos privados durante vários dias. Foi cortada a toda a cidade. Tivemos de recorrer à compra de combustíveis para fazer funcionar o nosso pequeno gerador que agora alimenta as noites em casa. Os trabalhos nas oficinas ficaram parados por conta do corte geral de abastecimento de energia a que ficamos privados. Oh, águas imensas, desnecessárias para a altura em que viestes ter à nossa beira. Quando és necessária não te aprontas para chegar e regar os nossos campos. E vens agora deitar abaixo tudo. Mas tudo mesmo que foi com suor e sacrifício conseguido? E quando pela próxima vieres bater à porta entra, troveja e cai lentamente regando comedidamente, e nascerá a flor da farinha, a bandeira do milho e o girassol para alegrar a árdua jornada do agricultor. Veio a televisão, deu nas notícias, pedimos ajuda às autoridades provinciais, vieram os técnicos no terreno, e até agora já lá se foram duas semanas e ainda aguardamos por algumas ajudas, esperemos que não tardem em aparecer. É urgente repor a segurança com a vedação outra vez da Casa. Recuperar os campos. Adquirir os insumos para reatar a actividade agrícola para alimentar o povo que nos foi confiado a apascentar. Neste Domingo de Páscoa veio visitar-nos o Senhor Arsénio Duarte e a família. Vivem em Paço de Sousa, são vizinhos lá da nossa Casa do Gaiato. Estiveram connosco e solidarizaram-se ao ver tamanha destruição causada pelas águas. E na conversa que tivemos enquanto visitávamos vários sectores da Casa, ainda com os pés postos na lama, prontificou-se em apoiar-nos com o caminhão para o transporte de brita para a recuperação do muro. O povo perdeu tudo, as suas casas foram destruídas em vários bairros da cidade. Neste momento, encontram-se alojadas nos campismos em tendas. São assistidos com alimentação e saúde, enquanto aguardam por alguma intervenção da parte do governo para o reassentamento das famílias que ali se encontram. Esperamos também pelas ajudas locais. E agradecemos todo o apoio da direcção da Obra da Rua para acudir às grandes aflições do momento que estamos a atravessar. O orçamento para a reposição dos quinhentos metros que ficaram destruídos me foi posto à mesa pelo mestre-de-obras da empresa que tinha sido a construtora. São no total trinta e um milhões de cuanzas necessários para a compra do material de construção e o pagamento da mão-de-obra. Para reforçar a alimentação e garantir a segurança alimentar e a saúde dos rapazes são necessários muitos mais recursos financeiros. Que a graça e a paz de Deus estejam com todos os nossos bons amigos de todas as horas. Aqueles que estão sempre connosco, e de longe ou de perto, acompanham a acção da Casa do Gaiato em benefício das crianças pobres e abandonadas, para que de mãos dadas possamos juntos dar a volta a esta situação. E que Deus a todos abençoe grandemente e nos guarde no seu amor. A conclusão é de Pai Américo: "Dá sempre assim a quem não pode retribuir; e o nosso bom Deus será a tua recompensa".
Padre Quim