BEIRE - Flash's

Estamos 'talhados' para a Festa...

Para um 'aprendiz de vivente'(1) a vida é sempre uma multifacetada Universidade. Mas não dá 'canudos' de mestrados nem doutoramentos… Nunca se passa de aluno, por mais velho que se seja. E, se bom aluno, cada vez mais empenhado em aprender. Matéria nova nunca falta … — Aprende-se até morrer, diz a sabedoria do povo. Mesmo com risco de generalizações abusivas, como neste caso. Todos sabemos da miopia dos nossos já sei, já sei… E, se atentos ao nosso interior, já todos sentimos o ridículo de nos vermos também caídos nesse lamaçal do já sei, já sei — fechados à realidade que nos interpela…

1. Ouvindo as minhas 'experiências'… Comecei cedo a aprender que "só há experiência que valha, quando tiramos dela a lição dos seus efeitos e consequências". Senão, acabamos por chamar 'anos de experiência' àquilo que mais não é do que 'anos de rotina' — para justificar a nossa resistência à mudança que se impõe…

Vem isto a propósito de uma nota que, a 13 de abril, publiquei no Facebook — Amigos de Pai Américo.

Reza assim: Nascidos para a FESTA // Fui convidado. E larguei tudo... A festejada e eu (c 14 meses de diferença) somos já "relíquias" a representar o tronco comum da nss "raiz de Jessé"... Vivi em cheio aquela bonita FESTA. E, claro, o meu Calvário esteve lá comigo. A fazer-me LUZ neste grave problema social da solidão dos Idosos...

Mudando o que há que mudar: estava lá e vi-me numa celebração idêntica aqui no Calvário. Avó rodeada dos filhos, netos e bisnetos... Mas, quando me apercebi, já era tarde para fazer umas fotos... Sinto pena porque... "Não podemos não falar..." Estas coisas precisam ser faladas para serem pensadas. E vice-versa. São problemas sociais que dizem respeito a todos. Se não se morre antes, ninguém escapa ao envelhesSOMOS...

Pq somos (des)humanos, a 'má língua' veio meter veneno… — Se gostassem assim tnto dela, não a punham aqui. Cuidavam dela em casa... Penso no Evangelho: "Pobres (da má língua) sp os tereis convosco"...

2. Vê-se com «os olhos que se tem»… A propósito de tudo e de nada, gosto de recitar aquele poema a que o autor (A. Gedeão) chamou «Impressão Digital». Acho que peca por demasiado 'determinismo', mas não deixa de expressar uma certa tendência que todos conhecemos — ainda que, sempre que necessário, podemos e devemos contrariar. Eis o poema: «Os meus olhos são uns olhos. / E é com esses olhos uns / que eu vejo no mundo escolhos / onde outros, com outros olhos, / não veem escolhos nenhuns. // Quem diz escolhos diz flores. / De tudo o mesmo se diz. / Onde uns veem luto e dores / uns outros descobrem cores / do mais formoso matiz. // Nas ruas e nas estradas / onde passa tanta gente, / uns veem pedras pisadas, / mas outros gnomos e fadas / num halo resplandecente. // Inútil seguir vizinhos, / querer ser depois ou ser antes. / Cada um é seus caminhos. / Onde Sancho vê moinhos / D. Quixote vê gigantes. // Vê moinhos? São moinhos. / Vê gigantes? São gigantes».

Diante destas festas — uma em família e outra numa instituição — o que vejo é a fome de quem "se sente 'talhado por nascimento' para a Festa da Vida". Nas duas avós festejadas já entrou a deterioração mental — Alzheimer e quejandos. Mas… a festa sente-se no seu rosto e posturas. Sobretudo no olhar e no sorriso. Tudo muito passageiro, mas sempre a passar… Por isso me dói o ver que «uns [só] veem luto e dores / onde outros descobrem cores que...».

Sei o quanto é difícil gerir uma instituição destas. Tudo é visto e avaliado por «uns olhos» e pelos tais «olhos uns»… Sei. Porque, em matéria de «ação social», nada se pode reduzir às Leis de uma SS e/ou uma IPSS. E sempre me sinto em busca da melhor tradução daquela palavra de Pai Américo — «toda a ação social que não seja também 'ação evangelizadora'(2) já não é ação social nenhuma». E logo me salta aquela do grande médico que foi Abel Salazar: «O médico que só sabe medicina, nem medicina sabe». E aqui entra a nossa vez de aprender a ser aquilo para que estamos 'talhados por nascimento', no lugar em que a vida nos coloca para Ser(mos) aí… Nascidos para, em comunhão amorosa, nos tornarmos mais e mais humanos e fecundos agentes de humanização — até à sua plenitude em cada um, na sua circunstância.

3. (…) Sempre os tereis convosco… A sabedoria de Jesus encanta todos aqueles que, "de coração puro", se Lhe abrem. Sempre que Lhe tecem uma armadilha, logo Ele a desmancha e, com todo o respeito pelo 'inimigo', tenta mostrar a realidade que é preciso ter em conta. E, porque O sinto «no meio de nós» sempre que «dois ou três se juntam para buscar os caminhos que Ele ainda aponta», delicio-me ao percorrer a nossa história…

Os «velhos do Restelo» quiseram impedir o avanço da sociedade portuguesa do séc. XV. Os "adoradores" da Ciência quiseram fazer dela a sua religião. Mas logo aparece alguém que, ousadamente, não para de buscar e segue em frente. Buscando, buscando até que… se vai encontrando…

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1.
No tempo de "passar cartão", o meu 'cartão de visita' apresentava-me como um 'mutante' / 'aprendiz de vivente'… Agora, já não passo cartão, mas ainda me sinto assim…

2.
Pai Américo usou a 'linguagem confessional' que lhe era própria, mas todos precisamos de descobrir que 'evangelizar' é, sobremaneira, 'humanizar'. D'isso está agora a dar provas o Papa Leão XIV, bem de pé, frente ao desbocado Donald Trump.

Um admirador

[Escreve segundo o acordo ortográfico]