
BEIRE - Flash's
Mas... sem perder o «assombro»...
Recordar é uma palavra que tanto dá para «dar cor» à vida sombria de um quotidiano sem sentido, como para «dar ao coração» o gosto, o entusiasmo, o assombro pelo que (em nós e à nossa volta) sempre está a acontecer… Deus louvado! Pelo potencial que nos dá para gerir o acontecer e até mesmo fazer acontecer... Porque ninguém está condenado a morrer de tédio. Mordido pela depressão de uma angústia existencial... O Natal passa, mas a Boa Nova não é de passar. Deus(Emanuel!...) fica, ESTÁ COMnosco — ontem, hoje e para todo o sempre… E, «se Deus encarnou em Jesus, esse Deus — que 'é encarnação' — continua a encarnar em mim, em ti, em cada ser humano que salta do nada para essa Luz que é tudo». Salta do in virtu para o in fieri(1)…
1. Rumo a uma «Fé Adulta»… Penso que o mal das nossas «crenças» já está denunciado no Evangelho de Mt 16,13-20. Jesus, querendo certificar-Se da maturidade da Fé dos seus discípulos, faz-lhes aquelas duas perguntas, bem claras: -Quem dizem os homens que Eu sou? / — E vós, quem dizeis que Eu sou?. Na Sua resposta a Pedro «não foi a carne nem o sangue que te revelaram isso», Jesus revela a Boa Nova de que só é verdade 'aquilo' que (direta e/ou indiretamente) vem d'O Meu Pai, que está no céu…
Acontece que, na ânsia de «empurrar» a todos para «o céu», usaram «a carne e o sangue» para nos 'revelar' «isso» ainda antes que o «Pai do céu» tivesse tido condições para o fazer… Depois, 'cristalizamos' aí. Por isso damos tão pouco crédito ao «auscultar» o que, nas circunstâncias de cada um, no seu dia a dia, «o Pai, que está no céu», tem para nos dizer «quando, no silêncio do nosso quarto, falamos com Ele, a tentar ouvir esses 'segredos' que só Ele tem para nos revelar»…
Gostamos muito de O pôr a "nascer em Belém", a «subir a Jerusalém e morrer numa cruz», (…), tudo lá muito longe de nós, muito lá por fora, e muito lá para trás… E não Lhe damos nem tempo nem espaço para, aqui e agora, «nascer no nosso coração», «ser Um Comnosco», «subir connosco as encostas do nosso calvário» — o meu, o teu, o de e de e de… Parecemos esquecidos de que «Ele está para além de todo o tempo e lugar», mas também está no coração de cada um, pronto a revelar-Se sempre que nos «conectemos» com Ele a partir da nossa melhor versão — NMV...
Assim mesmo! Sem perder o «assombro» diante deste «mistério» que se esconde por detrás de «um Menino que nos é dado» — para, também Comnosco, «crescer em sabedoria e em graça — diante de Deus e dos homens»…
2. "Opressores" que nem conhecemos… Encanta-me aquele poema de M. Torga — Nascer e Renascer… quantas vezes for preciso… E de todos os outros poemas que, como este, tentam expressar para nós a alegria e a dor, sempre presente, na busca de uma Nova Luz que vá aclarando o caminho que pisamos na luta pela nossa libertação(2). Essa que ninguém consegue sozinho nem consegue obter de ninguém. «Só em comunhão» é que poderemos chegar lá. Onde Deus também é Comun(i)hão. A comunhão perfeita. «Eu e o Pai somos Um e Eu vim para que todos sejam Um»…
O problema começa aqui — agarramo-nos a 'recordar' o «nascer» de Jesus e esquecemo-nos de cumprir aquele Seu aviso: — «É preciso renascer»… Seguir-Lhe os passos — «nascido do Pai antes de todos os séculos», «nascido da Virgem Maria», «morto e sepultado», «ressuscitou ao terceiro dia»… Tendo em atenção que, enquanto Lhe foi dado viver, «nasceu» do nacionalismo judaico para logo «renascer» para uma 'comunhão universal' com todos os homens (por Deus amados!) — independentemente de raças, de credos, de cores e/ou de culturas…
«Jesus pôs em marcha um movimento de purificação das religiões. Partiu da Sua, mas abriu para todas 'horizontes novos'. Para que todos os homens (todos, todos, todos!) pudessem viver a REalidade de um Deus que monta a Sua tenda no meio de nós».
Ainda não caímos na conta de estarmos a ser oprimidos pela nossa 'miopia mental', a nossa 'fé acriançada', o nosso 'comodismo religioso', o nosso 'fugir ao trabalho e dor' (inevitáveis) — sentido único da mudança que urge acontecer… «Porque Deus é encarnação, está encarnando sempre. Se descubro e vivo isso, estou a fazer Natal».Que, no dizer do poeta, é sempre que um homem quiser…
3. O «Shalom» quer ensinar que… Gostei de saber que «o Shalom judaico não significava 'ausência de guerra', mas sim plenitude de ser. A paz é a consequência de uma harmonia interna e externa. Num mundo que sempre está em guerra, há sempre alguém que traz paz».
Olho esta Família do nosso Calvário. Poiso os olhos nos mais débeis. Esses que (parece) nem consciência têm da sua debilidade. Mas, desde que haja alguém que cuide deles, tudo é calminha, uma paz contagiante e sorrisos de encantar.
Passo pela Luisinha, tristita e enterrada na sua cadeira de rodas. A sofrer, porque tem uma pedra no rim que a atormenta. Damo-nos «um abracinho». Sussurro-lhe meiguices. Sorri para mim e faz-me uma festinha.
Sinto mesmo: «Num mundo que sempre está em guerra, ainda há alguém que sempre traz paz»! Basta aprender a ver…
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1. Para quem ainda não se sente familiarizado com estas duas expressões latinas vale a pena à IA para poder saborear a riqueza que elas encerram…
2. Penso no poema Liberdade…
Um admirador
[Escreve segundo o acordo ortográfico]