BEIRE - Flash's

Calvário - a Celebração da Incerteza...

'ISSO' a que chamamos 'amor' sempre me despertou uma imensa curiosidade. Porque o amor é sempre tanta coisa e sempre tão subjetivo que a 'gente até se perde'… E acaba por não saber ao certo o que é semelhant'isso... E, depois, gastando tempo e energia a discutir palavras e mais palavras, vamo-nos afastando dessa 'realidade' que, não sabendo nós dizermo-nos o que isso é, sabemos – por um saber de experiências feito – que, se isso nos falta de todo, a vida logo vira um inferno

Há tempos, a minha filha falou-me de «um livro que tu vais gostar»(1). Ela sabe de minha paixão pela "compreensão do cérebro e gestão das emoções– para melhorar a vida"… Já li o livro. Sublinhei. Trago-o comigo feito 'caroço de azeitona' – a dançar na minha mente, vezes sem conta… Volta e meia lá estou eu de volta dele. Faço como os ruminantes – puxo-o cá pra cima e toca a remoer...

Hoje, é o «domingo do fariseu e do publicano». Dois "amores" estragados – um por presunção, e o outro por falta de 'confiança' n'um Deus que só sabe perdoar … Voltei ao livro e parei no «epílogo» – pg 147/148. Rumino: «Se, ao longo destas páginas, a neurociência nos trouxe algumas respostas, espero que tenha deixado igualmente espaço para a reflexão, espírito crítico e para a celebração da incerteza. Porque, no fim, talvez a maior beleza do amor (e arrisco, da vida) resida precisamente no que não conseguimos medir nem prever. // Se o amor fosse apenas química, seria possível recriá-lo em laboratório. Mas sabemos que ele é mais do que isso. O amor é experiência, memória, emoção e, acima de tudo humanidade».

1. Foi aqui no Calvário que «acordei»... Graças ao que, desde a minha adolescência, já vinha chamando por mim, foi aqui no Calvário que, em contacto mais direto com Pe. Baptista e com esta realidade social, me tornei mais consciente da extensão e profundidade desse amor que, como dizia, «sempre me despertou uma imensa curiosidade». E aqui vou fazendo a experiência da necessidade de ver e rever – continuamente – as minhas ideias feitas e os meus preconceitos; ver e rever os meus pré(vios)conceitos sobre este complexo (mas vital!) fenómeno humano a chamamos amor. Isso que, sempre nas asas do sonho, «comanda a vida – de uma forma tão concreta e definida como outra coisa qualquer». Disse-o a Poesia e di-lo, hoje, a Ciência – já de forma mais comprovada...

A meu ver, tal como o amor, também o Calvário precisa de ser uma continuada Celebração da Incerteza. Incerteza, mas busca insana de que seja, sempre e em tudo, uma expressão da vontade de Deus(2) para o nosso mundo. A «ideologia» de que «nós é que estamos certos» (seja de um «cérebro IPSS» seja de um «cérebro ERPI»), se a deixamos radicalizar-se, puxa, temos todo o caldo entornado. Em matéria de «assistência social», ainda só conhecemos a fome de uma «assistência» que esteja presente às necessidades base dos cidadãos. Não podemos embarcar nas certezas infundadas que uma Segurança Social nos queira vender como «de lei»…

2. Dar expressão à voz da experiência... Ouvi-o muitas vezes da boca de Pe. Baptista – isto só por muito amor… A postura, a expressão facial, o seu tom de voz, tudo me dizia o mesmo – uma experiência vivenciada ao longo de muitos anos de entrega incondicional.

Faço minhas estas suas palavras. Sim. O nosso(3) Calvário é um 'mistério de amor'! E, tal como o amor, é também um mistério de contradições – certezas e incertezas. A celebrar! Na esperança de que, a seu tempo, «Deus sempre irá dizendo o que fazer»...

3. Não podemos deixar que... Por mais adaptados que já estejamos, aos olhos de quem vive aqui dentro e saiba ver para além do meramente social (ERPIzado), o Calvário ainda tem muito de teologal – no bonito dizer de Pai Américo. E por muito que nos assustem as contas «para pagar isto tudo», não podemos deixar que no-lo matem. Não podemos deixar de o alimentar assim neste jeito de ser «uma palavra nova, porque tirada do Evangelho». É a honra dos portugueses que está em causa. Porque foi Portugal inteiro que, «nos segredos de Deus», deu a Pai Américo e a Pe. Baptista a força (e o dinheiro necessário) para pro+seguir – contra ventos e marés…

Se o Calvário fosse apenas "ação social» (laica!), como alguns gostariam que fosse, podíamos multiplicá-lo na "vulgaridade das muitas obras semelhantes". Era mais "uma ERPI" ao serviço (social...) da sociedade portuguesa...

Entendo que o nosso Calvário enfrentará sempre o mesmo problema do Evangelho – uma luta entre fariseus e publicanos – um «povo de Deus» e um «povo de César»... Em vez disso, há que lutar, em comum, por um sistema de SS que sirva o povo. Porque, diante do Deus revelado pelo "Carpinteiro de Nazaré", que tanto apaixonou Pai Américo, só há um povo. Sem lugar a 'preconceitos" – de "eu mais que tu»… Porque também Jesus nos deixou o exemplo d'isso. É só ver os testemunhos de fé da Cananeia e do Centurião (Lc 18, 9-17).

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1. «Programados para AMAR – O que a neurociência sabe (e ignora) sobre o amor». Ed Contraponto, de Luísa V. Lopes.

2. "Vontade de Deus" – um 'dialeto religioso' para dizer "uma necessidade urgente dos homens por Ele amados".

3. Aqui, nosso quer dizer o Calvário que sonhamos – para que continue a ser HOJE aquilo que já conseguiu ser ONTEM…

Um admirador

[Escreve segundo o acordo ortográfico]