História da Casa do Gaiato do Porto
De como nasceu a CASA DO GAIATO DO PORTO

Fundação da Casa do Gaiato de Paço de Sousa (Porto)
(in Obra da Rua)
A Casa do Gaiato de Miranda do Corvo, também conhecida por Casa do Gaiato de Coimbra, forneceu os necessários elementos de estudo, colhidos na vida do próprio rapaz da rua, mercê do à-vontade com que ali deram provas de sobejo. Importava alargar a Casa para receber mais garotos. Os pedidos de admissão afluíam e da mesma sorte o vadiozito apresentava-se por si mesmo, a pedir que o deixassem entrar.
Mas a casa, que fora antes um pequenino solar de gente de haveres, não oferecia condições e, o que é mais, havia muito poucas possibilidades de adquirir terrenos à volta. Ora aqui é que bate o ponto.
Uma quinta espaçosa é o motivo principal da Obra da Rua. Ela é fonte caudalosa de trabalho, de receita, de alegria. O contacto com as coisas da Natureza é um tónico espiritual que peneira e invade o ser desta pequenina fauna.
A Casa do Gaiato de Miranda do Corvo é um pequeno bloco de três hectares, o que necessariamente limita o número da comunidade infantil, daí a necessidade de procurar novas paragens e acudir ao maior dos males do nosso tempo.
O objecto da minha paixão é dar uma pátria aos estrangeiros que vivem nela, dar uma lei aos deles que vivem à margem da lei, marcar lugar e por a mesa aos que vivem sem talher. Dentro da mesma paixão, encontrei o seu equilíbrio: Se, gratuitamente me fora dado o sentido dos males alheios, gratuitamente me obriguei ao trabalho de os aliviar, porquanto, àqueles a quem muito se dá, muito se pede.
A cidade do Porto fornecia campo extenso de observações, sempre que por lá passava. Logo à saída da estação de S. Bento dava de cara com a chusma dos maltrapilhos, os cônsules da minha gente que, não sei porque bulas ou sinal, dirigiam-se a mim, confiados, a relatar as suas necessidades mais instantes - a grande, a única daquele momento comer! Eu conhecia mal a cidade; também não queria dar muito nas vistas. Trocava algumas palavras ligeiras o discretas com os farrapões e seguia-os a distância até à primeira tasca.
- Ali há iscas, senhor abade.
O pequenino da rua tem os sentidos apuradíssimos; eles são as suas armas de defesa. Com eles espreita, procura, foge. Vigia o tempo, as ocasiões, as pessoas. A rua é uma escola de acuidade, de precisão.
Daí a nada eu era conhecido da tropa e venerado. Já não é na estação é mais além, em sítio ermo, que o pequenino se aproxima e conta a sua tragédia. Sei aonde e como vive. «Eu fico nas retretes, senhor abade. » Sei da família. Sei dos costumes. É tal o desejo que eles experimentam de que alguém no mundo oiça a sua história, que as iscas e a tasca não têm lugar na conversa. É preciso lembrar-lhes: - Queres comer?
Estava indicado um local nos arredores do Porto para lançar os fundamentos de urna réplica fiei à Casa do Gaiato de Coimbra. O Porto, dizia eu comigo mesmo, há-de compreender. Há-de auxiliar. Há-de responder. Não podia ser dentro dos muros da cidade. Fora. Longe. Os filhos de ninguém contraem graves doenças nas ruas, que só se curam com a distância delas. Doenças da alma, as mais delicadas, as mais difíceis de curar. Eles vêm de um meio onde os valores andam invertidos. A rua, principalmente nas grandes cidades, por ser escola prática dos vícios, imprime-lhes no espírito o natural desprezo pela virtude. Os bons, para eles, são os maus. Se há um perverso, é o melhor de lodos. É obra muito difícil colocar as coisas no seu lugar. Temos de lançar mão e de aproveitar os incidentes da vida doméstica, os mais pequeninos, os mais caseiros e com eles levar o pequenino a reflectir, a compreender, a amar o bem. Temos de ter à nossa disposição os grandes e poderosos auxiliares do nosso sistema de educar esta classe de gente: o campo, as aves, as flores - uma quinta.
Apareceu-nos a antiga cerca dos monges beneditinos de Paço de Sousa, a uns 30 quilómetros da cidade do Porto. Não a procurei. Estava ela de quedo à minha espera! Um incêndio havido, anos antes, levou os que ao tempo ali habitavam, a outras paragens. O musgo, as silvas, os morcegos, o abandono - estavam ali. Uma sentença do Supremo Tribunal de Justiça declarou que a propriedade não era património do Estado, tão pouco de quem a usufruía. Hoje, chama-se e é a Casa do Gaiato.
Em Abril do ano de 1943 tomei conta do espólio. Dias depois começava-se a demolir o antigo dormitório dos frades e, logo a seguir, na parte mais alta da cerca, dezenas de pedreiros cantavam às pedras das casas em construção.
Ardeu Tróia!: «O quê?! Demolir as sacrossantas pedras do convento e trazer a crápula para uma terra tão linda?! » Críticas, reparos, dúvidas, reticências, acusações lógica e natural reacção da mediocridade.
Em Maio chegam da Casa do Gaiato de Miranda do Corvo três pioneiras da Obra: o António, de Celorico; o Amadeu, de Elvas; e o Adolfo, de Coimbra. Instalamo-nos todos em uma dependência do antigo cenóbio que ficou de pé, para tradição. Compramos uma vaca, algumas aves domésticas e coisas de primeira necessidade. Cultiva-se um pequenino quintal, com sua horta e jardim. E vivíamos como Deus com os anjos.
Em Agosto chegam mais obreiros. Vêm da Casa-mãe. São os fundadores de Paço de Sousa. Por esse tempo, tomámos conta do amanho da quinta, foram-se embora os caseiros que a fabricavam. Compra-se mais gado, alfaias, sementes. Começamos a cultivar os campos na sua totalidade. Grandes jeiras de terra negra cobrem-se de tapetes de pão. Os rapazes deliram com a vida a germinar. Dizem coisas aos frutos pendentes. Falam ao gado nos pastos. Lavam os calos das mãos, em grandes bicas de água, antes de entrar no refeitório. Sente-se uma pequena colónia de pequeninos trabalhadores organizados, com as horas ocupadas na vida de campo, de escola, de oficinas - horas para tudo. Vive-se a exuberante alegria que promana do lume da lareira. Os cozinheiros lembram à senhora qualquer prato especial que os rapazes gostariam de comer amanhã. O despenseiro gosta de receber ordens nesse sentido. Os refeitoreiros passam palavra à malta: «Amanhã temos batatas!»
Não vivemos a vida tenebrosa das pautas o dos regulamentos. Dispensou-se o zelo mai-lo saber do funcionário de profissão. Fizemos um pequenino mil seiscentos e quarenta dentro de Portugal e arvorámos a bandeira da independência, com a divisa: Obra de Rapazes, para Rapazes, pelos Rapazes.
Entrementes, emergem da terra as primeiras moradias da nossa futura Aldeia. Aboliu-se o sistema de caserna por ser contra a natureza da criança. Constroem-se vivendas de ar e luz, para famílias de 9, de 14 e de 20 rapazes. Uma Casa que verdadeiramente interesse os seus simpáticos e irrequietos habitantes. Que lhes inspire amor ao asseio. Que lhes dê o verdadeiro sentido da dignidade da pessoa humana. O belo, por ser reflexo da Beleza Incriada, tem dentro de si mesmo um grande poder educativo. Digo mais: Sem beleza, toda a pedagogia é morte, nem o próprio Evangelho realça.
A ideia de um quinzenal que dissesse ao mundo quem somos e onde vivemos, depressa tomou forma; e O GAIATO espalhou-se num instante. É devorado: «Eu leio de ponta a ponta», eis a exclamação dos assinantes que se apresentam por carta ou de viva voz. Gaiatos dos nossos vão às cidades vender. O Povo fulmina-os com perguntas de toda a ordem. Trazem assinantes. Trazem donativos. Provocam o espanto:
- Mas como pode ser isto?!
- Olhe, vá a Paço de Sousa - respondem os mais finórios.
A cidade do Porto pára, escuta, medita, determina-se. É-nos oferecido o edifício da Capela. O senhor a quem o fui pedir só teve uma palavra: «Muito obrigado por se ter lembrado de mim».Da mesma sorte e pelo mesmo preço, veio um donativo de 40 contos para o edifício da nossa enfermaria. O das oficinas seguiu na mesma esteira.
Ai! Porto, Porto, quão tarde te conheci!
O primeiro oferecimento de uma quinta aparece na cidade de Lisboa Não se trata da letra de um testamento, é uma dádiva viva, de uma pessoa viva, para alimentar a vida dos nossos rapazes.
Nós somos trabalhadores de primeira linha, trabalhamos mais de oito horas por dia. O nosso sistema exclui todo e qualquer pessoal auxiliar. Os orientadores são em muito pequeno número e a sua acção é agachada. De forma que esta primeira quinta será o local do primeiro desdobramento da Casa do Gaiato. A seu tempo irão obreiros de Paço de Sousa, como vieram para cá os de Miranda do Corvo, fundar. Eles hão-de trabalhar, dirigir, zelar aquilo que é deles, para eles, por eles.
Enquanto o Governo não nos proporcionar meios de vida nas colónias, como se espera que ele o faça em tempo oportuno, estas e outras possíveis quintas servem o nosso propósito de ocupar, com interesse próprio, o ex-vadio da rua.
É necessário deitar por terra os velhos métodos da Assistência, aonde não falta quem vá dirigir os rendimentos e interesses das Casas - nem sempre a bem e para bem dos Dirigidos. Afigura-se-me que o rendimento social, é formar e escolher, de entre os que necessitam de nós, os futuros mestres de vida. Há-de ser a massa.
Virá tempo, cuido eu, em que me hão-de pedir encarecidamente para aceitar quintas para a Obra e pode muito bem acontecer que eu as recuse. Se não tiver rapazes para os trabalhos, e enquanto os não tiver, não as aceito.
A nossa moeda forte, o nosso estímulo de vida, a nossa defesa da miséria, é justamente o trabalho e este das nossas mãos. Outros rendimentos são falsos e causam a assistência falsa que por aí se vê.
Se a nossa Instituição viesse a possuir fundos ou propriedades de rendimento, tanto bastaria para logo aparecer a legião dos que desejam ser o primeiro; que as empresas ricas são muito boas de governar.